EM FOCO - Informativo do Hospital Centrinho/USP e Funcraf • Ano 7• nº 41• Bauru, mar/abr 2007

Cultura & Lazer (p.6 e 7)

A arte que busca a cura

“Química” das artes plásticas pensa em revisitar Bauru, cidade onde nasceu e viveu até os 11 anos, mas está de malas prontas para Portugal

Das mãos da artista plástica Silvia Feliciano, 42 anos, substâncias usadas em enfermarias, como iôdo e violeta de genciana, dão cores a 200 peças de rachi cobertas com massa de pedra. “O uso dessas substâncias é uma espécie de busca pela cura, mas a cura das feridas interiores”, explica. A idéia, transformada na pesquisa “Produção de meios viabilizadores da utilização de iôdo e violeta genciana nas artes plásticas”, surgiu em Minas Gerais, quando Silvia estudava pintura e escultura na Escola de Belas Artes da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

“Quando mudei para Minas vi que havia muitos mendigos nas ruas centrais de Belo Horizonte, a grande maioria deles tinha feridas abertas nas pernas. Comecei a procurar informações sobre a situação daquela gente”, conta Silvia.

E o que ela descobriu, por meio de pesquisa em jornais e informação de profissionais de saúde da UFMG, foi uma realidade bem diferente da que se apresentava diante de seus olhos.

“Enquanto procurava informações, eu sintonizava o que via pintando com todo tipo de remédios que eu encontrava - permanganato, violeta de genciana, mercúrio e mertiolate. Foi quando encontrei algumas matérias de um jornalista mineiro que conseguiu entrevistar alguns dos mendigos na condição de que não seriam identificados. Eles contaram que os pontos de mendicância eram comercializados entre os pedintes. Havia alguns que possuíam carro, casa mobiliada e tudo mais, conseguido graças aos trocados conseguidos nas ruas.  Contavam também que ao pedir em dias de muita chuva, com criança no colo e feridas à mostra, a renda era bem maior.  Eu, que vinha observando a movimentação deles há meses, ao ler a matéria, podia identificar alguns dos entrevistados com certa facilidade. Também soube que um projeto firmado entre a Prefeitura de Belo Horizonte e a Universidade Federal, levava universitários de medicina para cuidar e medicar os mendigos. A prefeitura fornecia medicação, e a Faculdade a mão-de-obra. Em determinado momento, os tratamentos das feridas começaram a não surtir mais efeito e os alunos, desconfiados, resolveram investigar. Descobriram que os mendigos colocavam ácido nas feridas para que não sarassem pois eram ‘seu meio de ganhar a vida’. E o projeto acabou”, relata.

Foi a partir dessa vivência que Silvia intensificou seu trabalho em artes plásticas com os remédios. “Esse trabalho acabou demonstrando que eu precisava de um professor de química para entender as reações que aconteciam quando eu misturava os remédios no suporte. E eu contratei um professor particular de que me ensinou química por alguns meses. Acabei por desenvolver uma pesquisa sobre o uso de iôdo e violeta de genciana como material pictórico”, recorda-se. Um ano depois, sua pesquisa foi  selecionada como uma entre as duas melhores de toda a Universidade, e apresentada no SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

Essa é apenas uma das faces do trabalho dessa bauruense, que mora em Porto Velho (RO) - a 2.892 quilômetros de Bauru (SP) - desde a década de 70, quando seu pai se mudou com a família para a região da Amazônia Legal para trabalhar no Projeto Rondon.

Lugar para passar

Com o trabalho “Cidade”, Sílvia Feliciano foi selecionada pelo Instituto Itaú Cultural, que possui um programa que mapeia a produção emergente de todo o país, para expor a obra entre 2002 e 2004, com montagens nas cidades de Recife/PE, Belo Horizonte/MG e São Paulo. Foi uma espécie de turnê, financiada pelo Instituto. “A obra Cidade demora três dias para ser montada e é construída com restos de madeira nobre em pedaços com óleo de copaíba”, explica Silvia.

 A religiosidade é tema central de sua arte. Velas, fitas, tecidos, resinas, papeizinhos, desenhos, areia, terra, mitos e peculiaridades como “a melhor distância entre dois pontos” podem compor - ou inspirar - a arte de Silvia, atenta aos seus sentidos e aos sentimentos dos outros. Enfrenta, é claro, as dificuldades inerentes a quem está fora do eixo Rio-São Paulo, mas com persistência e criatividade vem criando peças e instalações que surpreendem aqueles que conhecem seu trabalho.

Em “Doces desejos de felicidade”, Silvia produziu cerca de mil patuás, como os que seu avô (já falecido) fazia e distribuía no Dia de Reis para dar sorte a todos da família. Eles são dispostos em 49 embalagens de madeira de doces produzidos no interior de Minas e resultam de pequenas lembranças guardadas por Silvia durante sete anos. 

“Lugar para passar”,  instalação com quase 5 metros de diâmetro, marca a passagem da artista por Minas Gerais.  Em 1999, com a exposição “Casa de guardar votos”, foi escolhida pela crítica do Jornal “Hoje em Dia” como uma das cinco melhores mostras que aconteceram na capital mineira. 

Silvia ressalta que não era seu objetivo usar essa linguagem específica, mas que o desenrolar do trabalho culminou nisso.

Seu desejo é fazer uma exposição temática em Bauru. “Gostaria de fazer algum trabalho com as crianças atendidas no Centrinho, hospital de que tanto ouço falar. Quem sabe um dia”, diz. E completa: “Revisitar minha cidade de origem seria muito bom. Mas jamais negarei o solo que me acolheu. Sou bauruense e rondoniense”, afirma. Mas a artista não tem previsão de rever sua cidade-natal, já que está de malas prontas para morar em Portugal. “Trilhei meu caminho no Brasil e, agora, sigo com a expectativa de abrir outras frentes de trabalho distante daqui”, conta.

De Bauru, Silvia se lembra da Praça Rui Barbosa e dos carrinhos de pipoca que ficavam por lá. A cidade também marcou o início de seu interesse pela arte. “Foi em Bauru, no colégio Madureira, no Jardim Vista Alegre, que tive a minha primeira experiência artística com barro”, recorda-se.

Bauru, Minas, Rondônia ou Portugal, não importa, por onde passar Silvia Feliciano vai dar o que falar, afinal sua arte é pulsante.

Box: Foco.dicas

Para falar com Silvia Feliciano, mande um e-mail: silviafeliciano@yahoo.com.br

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Editorial:
O milagre da vida
Cuca Fresca:
Nós e as circunstâncias
Ao pé d'ouvido:
A morte é algo tão vital quanto o próprio nascimento
Qualidade de vida:
 
Pesquisa:
Estudo encontra alta contaminação em alface
Fator ambiental:
A Mata Atlântica em nossa vida
Leitura:
Assistência à criança
Cultura & Lazer:
A arte que busca a cura
Campus etc.:
FOB leva saúde bucal e auditiva a rondonienses
  Programe-se - Centrinho 40 anos
Especial:

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  "Casa de guardar votos"
Retrato de família:
Uma autêntica família Centrinho
Gente do Brasil:
Cartas
Perfil de gente grande:
A matriarca do Maranhão
Sem contra indicação:
Eu diante do diferente *
Quintal do Vô Zico:
Calendário do Centrinho traz desenhos da garotada
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