| EM
FOCO - Informativo do Hospital Centrinho/USP e Funcraf • Ano 7•
nº 41• Bauru, mar/abr 2007
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Ao pé d'ouvido (p.3) A morte é algo tão vital quanto o próprio nascimento Ricardo Alexino Ferreira* Muitas vezes esquecemos que tudo aquilo que nasce está fadado a morrer. E morte, necessariamente, não significa não-vida. Ao contrário, sem ela não teríamos o conceito do nascer. O que acontece depois desse apagar ninguém sabe, talvez só quem viveu tal situação. Mas também pouco importa, todas as afirmações até hoje são só conjecturas, especulações. Podemos viver e encerrar tal ciclo na morte ou morrer e continuar enquanto minerais ou enquanto espíritos. Sabe-se lá. O mais importante é que a única certeza que temos (pelo menos nesse pequeno planeta em que vivemos) é que tudo que nasce morre e a isso chamamos ciclo da vida. Mas a compreensão desse processo não é fácil. Muitas vezes somente lembramos que morreremos quando pessoas queridas ou próximas morrem. Aí temos a noção de perda, mudanças e tantos outros simbolismos. Com o caso de Ronise Mota não foi diferente. A sensação de perda foi impactante. Muitos se perguntaram o porquê e, mesmo eu, que tento ter um outro olhar sobre os fenômenos da vida também fiz o mesmo questionamento. No dia 14 de dezembro de 2006, Ronise defendia o seu Exame de Qualificação de Mestrado, que é uma etapa anterior à defesa final. Ali, naquele dia, ela demonstrava e defendia com muita garra o seu trabalho, a sua pesquisa que era sobre “As implicações da Libras na TV: um novo gênero televisivo”. A sua pesquisa era algo inédito, diferente, uma grande contribuição para os estudos da Comunicação e também tinha um caráter social muito forte. Ela apresentava questionamentos e propunha novas tecnologias sobre o uso do sistema Libras na televisão. Ela constatou que o atual sistema era falho e muitas vezes não passava com eficiência informações aos deficientes auditivos e surdos. Aliás, a principal lembrança que associo à imagem da Ronise é o termo “surdo”. Lembro-me que durante uma orientação ao ler um artigo que ela estava encaminhando para um congresso eu a questionei sobre o termo surdo. Se ele não seria pejorativo, indo contra o importante politicamente correto. Ela me explicou que o termo era o mais correto, pois indicava aquele indivíduo com total ausência de audição. Talvez para quem seja da área de fonaudiologia ou os outros especialistas do Centrinho isso seja óbvio, mas como comunicador a explicação didática dela foi um aprendizado para mim. Inclusive no repensar a importância e o correto uso dos termos. Penso que a Ronise fechou o seu ciclo da vida. O que fica dela é a sua proposta de trabalho, a sua pesquisa que precisa um dia ser concluída. A morte é assim, quando chega. Bom seria se você pudesse argumentar que tem aquele romance para acabar de ler ou aquela telenovela que ainda não acabou ou, ainda, aquela sobremesa apetitosa que você planejava saborear. Para a morte sempre teremos um senão. Será que não seria bom encará-la com um por que não?
*Ricardo Alexino Ferreira é professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista/UNESP |
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||