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FOCO - Informativo do Hospital Centrinho/USP e Funcraf • Ano 7•
nº 41• Bauru, mar/abr 2007
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Perfil de gente grande (p. 18) A matriarca do Maranhão
Desde muito cedo, a funcionária pública aposentada Emilde da Silva Goulart, 64 anos, conviveu com as chamadas misérias humanas. Nascida em São Luís do Maranhão (a 2.349 quilômetros da capital paulista), ela perdeu a mãe antes de completar dois anos de idade. Criada pela avó paterna, aos 15 anos assumiu as responsabilidades de sua própria vida, a começar pelo seu registro civil. É isso mesmo. Foi ela quem esteve no cartório de São Luís (MA) para se registrar. “Quem me informou a minha data de nascimento foi a tia Renilde (falecida), que tinha o hábito de anotar as datas de nascimentos de todos os parentes”, recorda-se. Estudou até a quarta série primária. Aos 22 anos se casou e nunca mais abandonou sua missão: ser mãe. Emilde teve dez filhos e assistiu a morte de cinco deles, antes de completarem 1 ano. “Tiveram doenças da infância e não resistiram”, conta, com olhos marejados. Além da morte dos filhos, a maranhense conviveu com todo tipo de perda e destempero da vida. Alcoolismo, dificuldades financeiras e preconceito. Dois dos cinco filhos sobreviventes nasceram com deficiência. Elizaldo, 40 anos, nasceu com fissura labiopalatal. Fez uma cirurgia, mas optou por não seguir o tratamento. Edvaldo, 35, teve uma paralisia, além da fissura labiopalatal. Mas, diferentemente do irmão, trata-se no Centrinho/USP desde pequeno. São cerca de cinco horas de vôo de São Luís a Guarulhos (SP) e mais 4h30 da capital a Bauru. Emilde acompanha o filho até hoje, apesar de só ter 30% de sua visão. “Em 1996 percebi que estava perdendo a visão. Fiz diversas cirurgias e, hoje, uso uma lente permanente, mas só vejo vultos”, relata. Apesar da insegurança, do medo de cair, a matriarca não dispensa a companhia do filho e faz questão de acompanhá-lo. Geralmente, na bagagem, a dupla (Emilde e Edvaldo) traz refrigerante Jesus (típico do Maranhão), camarão, jussara (o nosso açaí), bolo de tapioca e peixe seco. “Com isso, economizamos, porque fora de casa as despesas são altas”, conta. Para ela, tal esforço faz parte da missão de ser mãe. “Parir é fácil. Até um animal faz. Mas ser mãe não é para qualquer pessoa. É preciso firmeza, coragem e determinação”, destaca. Hoje, a casa de Emilde, localizada no bairro Santa Cruz, é rodeada pelos cinco filhos, os seis netos, cinco bisnetos e amigos de plantão. Gente que faz questão de ajudá-los, especialmente nas viagens de Edvaldo. Ela sustenta a maior parte das despesas com seus dois salários. E não falta disposição para as receitas preferidas da família: refogado de sururu (um marisco), torta de camarão, peixe e feijão preto. Católica, articulada e consciente de suas limitações, Emilde é uma típica brasileira, encontrada (com todo o prazer) nos corredores do Centrinho/USP. E, com toda certeza, ajuda a escrever a história desse hospital.
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